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Salmo 58:1-5 Explicação

Davi inicia a composição do Salmo 58:1-5 com as palavras: Ao cantor-mor. Adaptado a al-tasete. Salmo de Davi. Mictão. Essas palavras iniciais identificam tanto a ocasião para o culto comunitário quanto o desejo do autor de que esta letra fosse dirigida publicamente. Davi, que reinou de aproximadamente 1010 a.C. a 970 a.C., foi o segundo rei de Israel, sucedendo o rei Saul. Seus escritos frequentemente refletem lutas da vida real e anseios espirituais, tornando-se fontes duradouras de orientação e esperança.

Ao especificar um contexto musical particular, o título sugere que Davi queria garantir que este salmo fosse cantado ou recitado em um arranjo sagrado específico. A música desempenhava um papel significativo na adoração de Israel, e ter uma forma designada para cada salmo permitia que a comunidade se unisse em louvor, lamentação ou reflexão coletiva. Esse aspecto unificador demonstra como as experiências de Davi tinham o propósito de encorajar outros que enfrentavam injustiças.

Ao se referir à sua obra como algo duradouro (o termo aqui utilizado indica uma forma de poema contemplativo), Davi estabelece um tom singular, convidando à reflexão sobre profundas questões morais e sociais. Este título prepara os ouvintes e leitores para as palavras desafiadoras que se seguem, palavras que confrontam a corrupção e a injustiça de frente.

A indagação desafiadora de Davi surge imediatamente quando ele diz: Acaso, proferis a justiça, guardando silêncio? Acaso, julgais com retidão os filhos dos homens? (v. 1). Ele confronta as autoridades e questiona se elas estão praticando a verdadeira justiça. No antigo Oriente Próximo, governantes e juízes eram por vezes vistos como deuses em um sentido funcional, com a expectativa de que defendessem a justiça na comunidade em nome de Deus (veja também João 10:34 para uma referência no Novo Testamento a um conceito semelhante). O salmista expõe corajosamente a realidade da responsabilidade humana de julgar corretamente.

Em algumas traduções, o termo “Ó deuses” é usado aqui para se referir a essas pessoas investidas de autoridade mundana, no sentido de que Davi poderia estar falando de forma figurada sobre líderes terrenos ou, ironicamente, dirigindo-se a eles com um título que reivindicam para si mesmos. De qualquer forma, sua pergunta penetra o véu da autoimportância. Mesmo nos tempos modernos, este versículo fala poderosamente àqueles que detêm autoridade e os lembra de que sua liderança deve refletir a bondade de Deus.

A pergunta retórica de Davi destaca a importância de buscar justiça e verdade. Quando os líderes se afastam da justiça, a comunidade sofre. Ao fazer uma pergunta tão direta, o salmista convida a um exame honesto das motivações de cada um e clama por verdadeira retidão em todas as esferas, sejam elas pessoais, comunitárias ou institucionais.

A resposta do salmista à sua própria pergunta é contundente: Não! Antes, no coração, obrais iniquidades; na terra, distribuís a violência das vossas mãos (v. 2). Em vez de cultivarem a justiça, esses líderes promovem ativamente a injustiça, expondo uma corrupção que brota de dentro e se espalha para fora. A metáfora de Davi enfatiza que o pecado começa no coração antes de se manifestar em ações.

Este versículo destaca como o coração, na terminologia bíblica, é visto como o núcleo das motivações, pensamentos e desejos de uma pessoa. Quando esse núcleo está imerso em injustiça, as ações externas inevitavelmente causam danos. Ao distribuir a violência, eles medem meticulosamente a transgressão, garantindo que a corrupção seja sistematicamente imposta, em vez de cometida acidentalmente.

Em um sentido mais amplo, Davi convida qualquer pessoa em posição de autoridade a examinar suas motivações pessoais. O salmo desafia cada um de nós a discernir se defendemos a verdadeira justiça ou se, sutilmente, permitimos a prática do mal. Manter a integridade interior abre caminho para decisões equitativas que realmente refletem o desejo de Deus por paz e justiça.

Em detalhes contundentes, Davi revela o caráter dos ímpios ao afirmar: Alienam-se os iníquos desde o nascimento; apenas nascem, desencaminham-se, falando mentiras (v. 3). Seu argumento não se refere necessariamente à infância literal, mas sim à profunda predisposição humana ao pecado desde os primeiros estágios do desenvolvimento moral. Pior ainda, se vangloriar da falsidade parece ser algo natural para eles.

A expressão alienamse os iníquos desde o nascimento, destaca a rapidez com que os seres humanos podem se afastar da verdade. Embora a linguagem de Davi seja forte, ela ressalta a seriedade com que ele encara a desonestidade e a maldade na sociedade. Talvez aludindo à condição humana universal, essas palavras também refletem a necessidade de transformação que só pode vir de um poder superior.

Do ponto de vista do Novo Testamento, Jesus aborda de forma semelhante a condição inata da humanidade, ensinando que uma mudança interior é necessária (João 3:3). Este versículo transmite a profunda tristeza de Davi pelo fato de a corrupção afligir os indivíduos de forma tão completa e exigir um resgate que vai além do mero esforço humano.

Para ilustrar o dano causado por tamanha maldade, Davi compara os ímpios a criaturas perigosas, dizendo: Têm peçonha, semelhante à peçonha da serpente; são como a cobra surda que tapa os ouvidos (v. 4). Essa imagem transmite tanto engano quanto dano letal. Assim como a peçonha se espalha pelo corpo para infligir dor e morte, os ímpios espalham destruição por meio de suas palavras e ações tóxicas.

A comparação com uma cobra surda cria uma imagem de ignorância deliberada. Mesmo quando a verdade ou os avisos são apresentados, os ímpios escolhem não ouvi-los ou aceitá-los. Tal serpente está além da razão e da contenção, indicando um espírito profundamente obstinado e rebelde.

Por meio desse poderoso tema, Davi destaca que os ímpios podem ser astutos e perigosos, e não meramente passivos e equivocados. Uma decisão consciente de rejeitar a verdade os coloca em um caminho de oposição deliberada a qualquer conselho, tornando-os difíceis, senão impossíveis, de persuadir a retornar a um caminho reto apenas por meios humanos.

Ele explica ainda a obstinação do mal ao afirmar: A qual não ouve a voz dos encantadores, por mais hábil que seja em encantamentos (v. 5). No contexto de Davi, os encantadores de serpentes eram conhecidos por usar música ou encantamentos para acalmá-las, mas nenhuma arte ou persuasão externa influencia essas serpentes metafóricas. Sua recusa em ouvir simboliza um coração totalmente resistente à correção.

Ao destacar como ignoram até mesmo as tentativas especializadas de um "conjurador habilidoso", Davi pinta um quadro de rebelião irracional. Nada pode apaziguar ou redirecionar essas forças malignas - elas preferem permanecer em sua dureza. Essa postura inflexível acarreta um julgamento inevitável, porque tais corações rejeitam a própria possibilidade de redenção.

Contudo, o salmo não está desprovido de esperança. Nos versículos seguintes, Davi clama a Deus para que aja, revelando a certeza de que a justiça divina pode e irá resolver o que a humanidade sozinha não consegue.

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