
Jeremias 46 inicia uma nova seção do livro contendo oráculos contra nações estrangeiras. Essas profecias demonstram que o Deus de Israel governa não apenas Judá, mas todas as nações. O primeiro oráculo é dirigido contra o Egito, focando em sua catastrófica derrota militar em Carquemis. Esse evento, que ocorreu durante o reinado de Jeoaquim de Judá, marcou o fim do domínio egípcio no Oriente Próximo e a ascensão da Babilônia como a potência imperial dominante. Jeremias interpreta essa batalha histórica como um ato de julgamento divino realizado pelo SENHOR dos Exércitos.
O capítulo começa de forma ampla, declarando: "Aquilo que veio como palavra do Senhor ao profeta Jeremias acerca das nações" (v. 1). Essa frase enquadra tudo o que se segue como revelação divina, e não como comentário político. Jeremias não está especulando sobre assuntos internacionais; ele está transmitindo a interpretação de Deus sobre os acontecimentos mundiais.
Este título reforça um tema bíblico importante: o Deus de Israel é soberano sobre todos os povos, não apenas sobre Judá. Coleções semelhantes de oráculos contra as nações aparecem em Isaías 13-23, Ezequiel 25-32 e Amós 1-2. O papel de Jeremias como profeta para as nações foi estabelecido em seu chamado ( Jeremias 1:5, 10), e esta seção cumpre essa missão.
O primeiro oráculo é especificado: "Ao Egito, concernente ao exército de Faraó Neco, rei do Egito, que estava junto ao rio Eufrates, em Carquemis, o qual Nabucodonosor, rei da Babilônia, derrotou no quarto ano de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá" (v. 2). Faraó Neco era o governante egípcio que anteriormente havia assassinado o rei Josias em Megido (2 Reis 23:29). Ele buscava expandir a influência egípcia para o norte após o declínio da Assíria.
Carquemis era uma cidade estratégica às margens do rio Eufrates, controlando importantes rotas comerciais e militares. Em 605 a.C., Nabucodonosor derrotou decisivamente o Egito ali, um fato também registrado nas crônicas babilônicas e mencionado em Jeremias 25:19 e 2 Reis 24:7. Essa derrota pôs fim definitivamente às ambições imperiais do Egito na região.
Ao ancorar a profecia em um momento histórico preciso, Jeremias mostra que o julgamento de Deus se desenrola dentro de uma história real e datável.
A profecia começa com um chamado às armas: "Alinhem o escudo e o broquel, e aproximem-se para a batalha!" (v. 3). O escudo e o broquel representam tanto equipamentos defensivos grandes quanto pequenos, sugerindo plena prontidão militar. O Egito é retratado como confiante, organizado e preparado para o combate.
Essa ordem reflete a autoconfiança do Egito antes da batalha. Historicamente, o Egito entrou em Carquemis esperando o sucesso, tendo anteriormente repelido as forças babilônicas. A linguagem de Jeremias reflete a confiança do Egito antes que Deus a derrube, ecoando Provérbios 16:18: o orgulho precede a destruição.
A mobilização continua enquanto o Egito é instruído: "Aparem os cavalos, montem nos corcéis e tomem posição com capacetes! Lustrem as lanças, vistam as armaduras de escamas!" (v. 4). Jeremias 46:4 enfatiza a sofisticação militar do Egito. Cavalos, carros de guerra, capacetes e armaduras indicam um exército profissional e bem equipado.
O Egito era conhecido por suas forças de carros de guerra, e tropas mercenárias constituíam uma parte significativa de sua força militar. No entanto, a descrição detalhada de Jeremias serve para acentuar a ironia do que se segue: nem mesmo a preparação mais avançada pode resistir ao decreto do SENHOR. Isso nos remete ao Salmo 20:7, que contrasta a confiança no poder militar com a confiança no SENHOR:
"Alguns se gabam em carros de guerra e outros em cavalos."
Mas nós nos gloriaremos no nome do SENHOR, nosso Deus.
(Salmo 20:7).
O tom muda abruptamente quando Deus pergunta: "Por que eu vi isso? Eles estão aterrorizados, estão recuando, e seus valentes foram derrotados e se refugiaram na fuga, sem olhar para trás; o terror está por todos os lados!" (v. 5). A pergunta "Por que eu vi isso?" (v. 5) destaca a reviravolta inesperada. O exército que parecia pronto agora está em plena retirada.
A expressão "o terror está por todos os lados" (v. 5) ecoa a frequente descrição de julgamento feita por Jeremias (Jeremias 6:25; Jeremias 20:3). Os soldados do Egito não recuam de forma ordenada; fogem em pânico. Isso cumpre o padrão da aliança de que Deus pode causar medo e confusão entre exércitos de homens, mesmo entre homens poderosos (Deuteronômio 28:25; Juízes 7:21-22).
A derrota é total em Jeremias 46:6: " Não fuja o homem veloz, nem escape o valente; no norte, junto ao rio Eufrates, tropeçaram e caíram" (v. 6). Nem mesmo o mais rápido e o mais forte podem escapar. A localização "no norte, junto ao rio Eufrates" (v. 6) confirma que se refere especificamente a Carquemis.
Este versículo reforça a ideia de que o resultado é divinamente determinado. Habilidade, força e velocidade não oferecem vantagem alguma quando Deus executa o julgamento. Linguagem semelhante aparece em Amós 2:14-16, onde a fuga é negada a todas as classes de guerreiros sob o julgamento divino.
Jeremias então pergunta: " Quem é este que se levanta como o Nilo, como os rios cujas águas transbordam?" (v. 7). O Nilo era a fonte da fertilidade, da riqueza e da identidade do Egito. Suas cheias anuais simbolizavam abundância e poder. O Egito se via como estável, fonte de vida e invencível.
A iconografia reflete a autopercepção do Egito como uma força crescente que subjuga as terras circundantes. Nas Escrituras, a imagem da água frequentemente representa poder e caos (Isaías 8:7-8). Aqui, o Egito é retratado como excessivamente confiante em sua força natural.
A metáfora é explicada: "O Egito se levanta como o Nilo, como os rios cujas águas transbordam; e ele disse: 'Levantar-me-ei e cobrirei aquela terra; certamente destruirei a cidade e os seus habitantes'" (v. 8). A ambição do Egito é explicitamente declarada. As forças do faraó pretendiam dominar cidades e regiões além de suas fronteiras.
Isso ecoa a arrogância anterior do Faraó em Êxodo, onde ele se opôs aos propósitos de Deus e sofreu uma derrota catastrófica (Êxodo 5-14). O padrão histórico do Egito de autoexaltação contra Deus reaparece aqui. Mais uma vez, o Egito superestima seu poder e subestima o SENHOR.
Os aliados do Egito são convocados: " Subam, cavalos, e conduzam descontroladamente, carros de guerra, para que os valentes marchem: Etiópia e Pute, que manejam o escudo, e os lídios, que manejam e curvam o arco" (v. 9). Etiópia (Cuxe), Pute (provavelmente Líbia) e Lídia eram regiões conhecidas por seus soldados mercenários.
Isso confirma os registros históricos de que o Egito dependia muito de tropas estrangeiras. No entanto, essas alianças não alteram o resultado. As Escrituras advertem repetidamente que confiar em alianças em vez de Deus leva ao fracasso (Isaías 31:1; Salmo 146:3).
O significado teológico da batalha é explicitado: "Porque aquele dia pertence ao SENHOR Deus dos Exércitos, dia de vingança, para se vingar dos seus inimigos; e a espada devorará e se fartará, e beberá o sangue deles; porque haverá matança para o SENHOR Deus dos Exércitos, na terra do norte, junto ao rio Eufrates" (v. 10). Esta batalha não é meramente geopolítica; é um julgamento divino. O título "SENHOR dos Exércitos" enfatiza o comando de Deus sobre os exércitos celestiais e terrestres.
A imagem da espada "saciada" de sangue reflete a derrota total. Linguagem semelhante aparece em Isaías 34:5-6 e Ezequiel 30:24-25. O local é novamente especificado: "na terra do norte, junto ao rio Eufrates" (v. 10), não deixando dúvidas de que Carquemis está em questão.
O Egito é então abordado sarcasticamente: "Sobe a Gileade e busca bálsamo, ó virgem filha do Egito! Em vão multiplicaste remédios; não há cura para ti" (v. 11). O bálsamo de Gileade era conhecido por suas propriedades medicinais ( Jeremias 8:22). O Egito é instruído a buscar cura, mas é inútil.
A expressão "filha virgem do Egito" (v. 11) enfatiza a vulnerabilidade e a humilhação. A ferida do Egito não tem cura porque foi infligida por Deus. Isso estabelece um paralelo com a ferida incurável de Judá em Jeremias 30:12-15, mostrando que o Egito e Judá estão sujeitos à mesma justiça divina.
O oráculo conclui declarando que "as nações ouviram falar da tua vergonha, e a terra se encheu do teu clamor de angústia; porque um guerreiro tropeçou no outro, e ambos caíram juntos" (v. 12). A derrota do Egito torna-se conhecida internacionalmente. O que deveria demonstrar poder transforma-se numa humilhação pública.
A imagem de guerreiros tropeçando uns nos outros reforça o caos da derrota. Isso cumpre a promessa de Deus de que as nações orgulhosas seriam humilhadas perante o mundo ( Jeremias 25:15-17). A queda do Egito em Carquemis torna-se um exemplo de advertência para todas as nações que se exaltam contra o SENHOR.
Usado com permissão de TheBibleSays.com.
Você pode acessar o artigo original aqui.
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