
O oráculo contra Edom em Jeremias 49:7-11 não começa com imagens militares, mas com uma pergunta incisiva sobre sabedoria: "A respeito de Edom. Assim diz o Senhor dos Exércitos: ' Acaso não há mais sabedoria em Temã? Perdeu-se o bom conselho aos prudentes? Acaso a sua sabedoria se desvaneceu?'" (v. 7). Essa é uma escolha deliberada de enquadramento. Edom, descendente de Esaú, era amplamente associado no mundo antigo à sabedoria e ao conselho, particularmente por meio da região de Temã, conhecida por seus sábios (Jó 2:11; Obadias 8). A pergunta de Jeremias não pressupõe ignorância por parte de Edom; ela expõe a falha de sua reputação. A sabedoria que não leva à humildade diante de Deus acaba por ruir quando mais necessária.
A questão tríplice intensifica a crítica. Sabedoria, bom conselho e prudência referem-se ao julgamento prático — como agir corretamente em momentos de crise. Jeremias não acusa Edom de falta de inteligência, mas de ter perdido o discernimento. Essa distinção está em consonância com a teologia bíblica da sabedoria, que insiste que a verdadeira sabedoria começa com o temor do Senhor (Provérbios 1:7). A sabedoria de Edom "decaiu" porque se tornou autorreferencial e se desvinculou da submissão a Deus. Obadias faz a mesma acusação, declarando que Deus destruirá os sábios de Edom precisamente porque eles confiam em seu próprio entendimento (Obadias 8-9).
O oráculo então amplia seu alcance geográfico: “Fujam, voltem, habitem nas profundezas, ó habitantes de Dedã” (v. 8). Dedã estava associada ao comércio de caravanas e à relativa distância dos centros políticos de Edom. A ordem para fugir para as profundezas sugere buscar refúgio em terrenos remotos — cavernas, leitos de rios secos ou fortalezas no deserto. Contudo, mesmo essa instrução carrega ironia. O SENHOR adverte Dedã não porque a fuga será bem-sucedida, mas porque o desastre que virá sobre Edom será tão severo que a própria proximidade se tornará perigosa.
A razão apresentada é explícita: "Pois trarei sobre Esaú a desgraça que ele sofreu, no tempo em que eu o castigar" (v. 8). O nome Esaú evoca a identidade ancestral de Edom e sua antiga rivalidade com Jacó/Israel (Gênesis 25-36). A linguagem de Jeremias ecoa acusações proféticas anteriores que fundamentam o julgamento de Edom não em um ato isolado, mas em um padrão de hostilidade contra Israel (Salmo 137:7; Ezequiel 35:5). O tempo do castigo ressalta a intencionalidade divina — não se trata de um colapso aleatório, mas de um acerto de contas determinado.
Jeremias 49:9-10 esclarece a natureza do julgamento por meio de uma comparação. Deus pergunta se até mesmo os vindimas ou os ladrões deixariam algo para trás: " Se viessem a ti os vindimas, não deixariam as espigas caídas? Se viessem ladrões de noite, destruiriam apenas até se fartarem" (v. 9). A perda comum tem limites. Os ceifeiros deixam restos; os ladrões levam seletivamente. Essas analogias estabelecem uma expectativa básica de sobrevivência parcial.
Deus então frustra essa expectativa: "Mas eu despojei Esaú de tudo, descobri seus esconderijos, de modo que ele não pode se ocultar; sua descendência foi destruída, juntamente com seus parentes e seus vizinhos, e ele não existe mais" (v. 10). Edom era geograficamente bem defendido, com assentamentos escavados em penhascos e protegidos por terrenos acidentados (Obadias 3-4). Essas vantagens naturais haviam reforçado a sensação de invulnerabilidade de Edom. Jeremias insiste que a geografia não oferece proteção quando Deus age. Aquilo que os humanos usam para se esconder — fortalezas, alianças, terreno — Deus expõe.
As consequências são abrangentes. Jeremias 49:10 não implica a aniquilação literal de cada indivíduo edomita, mas o desmantelamento de Edom como uma nação funcional. Família, parentesco e alianças regionais — todas as estruturas sociais que sustentam um povo — desmoronam em conjunto. Linguagem semelhante é usada em outros lugares para descrever a queda de nações orgulhosas (Isaías 13:19-22; Jeremias 48:42).
Contudo, o oráculo não termina com a destruição total. Jeremias 49:11 introduz uma mudança marcante de tom: "Deixem para trás os seus órfãos, que eu os preservarei; e confiem em mim as suas viúvas" (v. 11). Esta declaração revela um importante limite teológico. Embora Edom, como nação, seja julgada, Deus não abandona os vulneráveis dentro dela. Órfãos e viúvas — aqueles sem poder político ou responsabilidade pela arrogância nacional — são explicitamente colocados sob os cuidados de Deus.
Essa distinção está em consonância com um padrão bíblico consistente. Deus julga o orgulho coletivo e a injustiça sistêmica, mas permanece atento aos indivíduos que são impotentes dentro desses sistemas (Deuteronômio 10:18; Salmo 68:5). Mesmo em oráculos de julgamento, Deus afirma Seu papel como protetor dos indefesos. O mandamento de "confiar em Mim" é notável porque se estende além de Israel. Ele afirma que a preocupação de Deus com a justiça e a misericórdia não se limita a uma etnia específica, mesmo quando o julgamento se abate sobre nós.
Em conjunto, Jeremias 49:7-11 retrata a queda de Edom como o fracasso da sabedoria dissociada da humildade, o colapso da falsa segurança e a exposição do orgulho nacional. Contudo, também insiste que o julgamento não é indiscriminado. Deus desmantela as nações que se exaltam, mas preserva a vida onde a dependência substitui a arrogância. A passagem, portanto, equilibra a severidade com a clareza moral: a sabedoria que ignora a Deus se deteriora, a segurança sem submissão falha, mas o cuidado de Deus pelos vulneráveis perdura mesmo em meio ao julgamento.
Usado com permissão de TheBibleSays.com.
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