
Ao prosseguir com o salmo, Davi clama por juízo divino sobre aqueles que se voltaram contra ele: Torne-se-lhes a mesa diante deles em laço; e, quando estiverem seguros, sejam-lhes armadilha (v. 22). Embora essas palavras soem duras, refletem o apelo do salmista para que Deus intervenha contra aqueles que fomentam a destruição e a injustiça. Na cultura bíblica antiga, a mesa frequentemente simbolizava bênção e provisão. O rei Davi ora para que aquilo que seus opressores consideram uma fonte de prosperidade se transforme na própria causa de sua ruína. Esse apelo no Salmo 69:22-28 destaca como as consequências do mal podem ser autoinfligidas, especialmente quando o povo de Deus se volta para Ele em busca de libertação.
Partindo dessa ideia de reversão, Davi descreve a armadilha se formando em meio a uma suposta sensação de bem-estar. Em situações onde os opressores aparentam confiança, Davi ora para que essas circunstâncias sejam desfeitas. Em outras passagens das Escrituras, vemos como a arrogância muitas vezes precede a queda, enfatizando a importância da humildade e da busca pelos caminhos de Deus (Romanos 11:9-10). Essas palavras oferecem uma visão da confiança do salmista de que Deus corrigirá todos os erros no tempo certo.
O salmista continua: Obscureçam-se-lhes os olhos, para que não vejam; E faze que os seus lombos tremam constantemente (v. 23). Este apelo centra-se na cegueira espiritual e moral que pode afligir os opressores. Davi clama pela sua incapacidade de discernir a verdade, refletindo como a rebelião persistente contra Deus obscurece a visão espiritual. Nas Escrituras, a cegueira é frequentemente usada metaforicamente para representar a relutância em ver a justiça de Deus.
Davi também ora para que o medo e o tremor — resultado de ignorar a Deus — os dominem. O tremor em seus lombos simboliza a instabilidade constante, mostrando como aqueles que resistem ao Todo-Poderoso jamais encontram verdadeiro descanso. Esses versículos ilustram um crescente desespero no clamor de Davi, mas também nos lembram que um temor reverente ao Senhor leva à sabedoria (Provérbios 9:10), enquanto o desrespeito a Ele leva à incerteza.
Em uma expressão mais direta, Davi implora a Deus que reaja com ira: Derrama sobre eles a tua indignação e apanhe-os o furor da tua ira (v. 24). Aqui, o salmista destaca a justiça divina. Clamar pela indignação de Deus é reconhecer que o julgamento perfeito pertence ao Senhor, que vê as motivações ocultas de cada coração. Na época de Davi, como na nossa, há consolo em saber que a injustiça não passa despercebida por Deus.
A ira ardente retrata a natureza devastadora do julgamento divino sobre o mal persistente. Embora possa parecer extremo, essas orações servem como um lembrete de que o Rei de Israel, durante um período turbulento da história bíblica, confia na soberania de Deus em vez de na vingança pessoal. Em última análise, a profundidade das emoções de Davi aponta para a vulnerabilidade humana e a necessidade de um Juiz justo.
O versículo seguinte intensifica a separação dos ímpios: Fique desolado o lugar da sua morada, e não haja quem habite nas suas tendas (v. 25). Essa imagem remete à vida comunitária do antigo Israel, onde acampamentos e tendas representavam a segurança e a linhagem de uma família. Davi ora para que aqueles que praticam o mal sejam despojados da estabilidade que lhes é atribuída, levando ao completo isolamento.
Historicamente, um acampamento desolado significava perda de recursos e proteção. Com uma honestidade cortante, Davi pede a Deus que afaste os transgressores de qualquer bênção que pudessem desfrutar. Este é um lembrete contundente de que a rebelião contínua acarreta graves consequências — um tema recorrente nos Salmos e posteriormente reafirmado pelos ensinamentos de Jesus, que advertiu que a rejeição persistente de Deus leva à esterilidade espiritual e comunitária (Lucas 13:34-35).
Mudando o foco, Davi lamenta a injustiça: Pois perseguem a quem tu feriste e conversam sobre a mágoa daqueles que tu chagaste (v. 26). Isso implica que os inimigos de Davi zombaram e exploraram o sofrimento do salmista, embora sua aflição fosse permitida por Deus. Na cultura da época de Davi, regozijar-se com a dor alheia era considerado especialmente ofensivo, pois desconsiderava a soberania e os propósitos do Senhor.
A expressão daqueles que tu chagaste aponta para um mistério mais profundo: mesmo dentro da disciplina divina, a mão de Deus permanece sobre os seus escolhidos. Davi reconhece que, por vezes, as suas dificuldades têm origem nas medidas corretivas de Deus. Contudo, quando os inimigos se aproveitam dessa disciplina, pecam contra aquele que orquestra todos os acontecimentos para propósitos mais elevados (Hebreus 12:6).
Davi então suplica: Ajunta-lhes iniquidade sobre iniquidade, e não entrem na tua justiça (v. 27). Este é um apelo para que aqueles que persistem ativamente no mal enfrentem o peso crescente de suas transgressões. A ideia da iniquidade se acumulando ressalta a seriedade da rebelião contra os caminhos de Deus.
A recusa em entrar na justiça de Deus reforça ainda mais o anseio de Davi em ver aqueles que se recusam a se arrepender enfrentarem as consequências de resistirem constantemente à verdade divina. Embora possa parecer uma postura inflexível, ela comunica um princípio bíblico: sem humildade e arrependimento, os indivíduos permanecem fora da cobertura da graça de Deus. O salmo nos desafia a considerar o quão crucial é responder ao chamado de Deus em vez de endurecer nossos corações.
Finalmente, Davi apresenta uma conclusão impactante: Sejam riscados do livro da vida e não sejam registrados com os justos (v. 28). Este versículo ressalta a dimensão eterna do julgamento. O conceito do livro da vida permeia toda a Escritura, simbolizando o registro de Deus daqueles que lhe pertencem (Apocalipse 20:15). Ao pedir que esses malfeitores não façam parte desse registro, Davi destaca uma triste realidade: a recusa persistente em seguir a Deus acaba por excluir o indivíduo de sua comunidade da aliança.
Para Davi, historicamente considerado o segundo rei de Israel, liderando a nação por volta da virada do primeiro milênio a.C., esta oração expressa o desejo sincero de que a santidade de Deus prevaleça. Em última análise, vemos uma fusão da misericórdia e da justiça divinas nas Escrituras, culminando com o convite de Jesus para que todas as pessoas encontrem vida nele (João 3:16). Mesmo ao lermos essas súplicas fervorosas, lembramos que Deus pacientemente chama as pessoas ao arrependimento, mas também mantém a perfeita justiça.
Usado com permissão de TheBibleSays.com.
Você pode acessar o artigo original aqui.
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