
No Salmo 88:1-9, quando lemos "Canção ou Salmo dos filhos de Coré. Ao cantor-mor. Adaptado a maalate leanote. Masquil de Hemã, ezraíta", encontramos uma introdução que atribui esta composição aos filhos de Coré, que faziam parte de uma linhagem familiar levítica. Seu ancestral, Coré, é mais conhecido por sua revolta contra Moisés durante o período do deserto de Israel, que provavelmente ocorreu em algum momento entre os séculos XV e XIII a.C. O fato de gerações posteriores da linhagem de Corá terem contribuído para a salmodia demonstra a obra contínua de redenção e transformação de Deus nas linhagens familiares, apesar das falhas do passado.
O título também menciona Hemã, o ezraíta, que foi uma figura musical renomada, possivelmente durante o reinado do rei Davi, por volta do século X a.C. Davi atribuiu funções específicas a vários levitas no culto (1 Crônicas 15), e é acreditado que Hemã tenha sido um deles. Participando da tradição musical do templo, Hemã ajudou a preservar e expressar o culto por meio do lamento e do louvor, e o salmo a ele atribuído aborda a profunda tristeza na presença do Todo-Poderoso.
Inseridas no contexto do culto dos antigos israelitas, essas palavras destacam a função comunitária e litúrgica do salmo. Vindo de Jerusalém, o centro do culto em Israel, esse texto teria ressonância com aqueles que viajavam ao santuário, apontando para Deus como o foco de todo lamento e oração, e guiando os fiéis em um diálogo sincero com Ele.
O texto começa com: "Ó SENHOR, Deus da minha salvação, clamo a ti de dia e de noite" (v. 1). O salmista identifica o Todo-Poderoso como a fonte da salvação, mesmo em tempos de desespero. Clamar de dia e de noite implica um apelo incessante, uma busca persistente pela atenção de Deus, em momentos de angústia, voltar-se continuamente para Ele reconhece que não há outra esperança.
Ao se dirigir a Deus como o Deus da minha salvação, o salmista assegura uma profunda confiança na libertação do Senhor, apesar do tom sombrio do lamento, isso em contrasto com o sentimento de abandono que permeia todo o salmo, exemplificando uma postura de fé que se apega ao caráter de Deus mesmo em circunstâncias adversas (Romanos 8:24-25) para nos lembrar de que a fé não é a ausência de luta, mas uma constante busca por Aquele que pode salvar.
A oração diurna e noturna também está em consonância com a exortação do Novo Testamento para orar sem cessar (1 Tessalonicenses 5:17). Ela ressalta que os crentes de todas as épocas são convidados a dirigir suas tristezas e anseios a Deus, que permanece inabalável e pronto para ouvir.
Continuando seu apelo, o salmista diz: “Chegue à tua presença a minha oração inclina os teus ouvidos ao meu clamor.” (v. 2). Aqui, ele suplica fervorosamente pela intervenção pessoal de Deus. O uso dessa linguagem transmite tanto reverência quanto humildade, como se ele estivesse se aproximando de um grande Rei para pedir uma audiência na corte real.
Este apelo desesperado reflete a convicção de que Deus não está distante nem desatento. Mesmo quando as emoções do salmista sugerem o contrário, ele ainda suplica a Deus que se volte para Ele em misericórdia. O princípio espiritual em ação é que nunca é tão sombrio ou desesperador buscar a atenção do Senhor, pois Ele acolhe a alma cansada (Mateus 11:28).
O ouvido inclinado de Deus é muito mais do que uma imagem; simboliza o Seu desejo de estar perto dos Seus filhos. Em meio às tempestades da vida, confiar que Deus ouvirá nossos clamores traz consolo e nos lembra que o lamento pode nos aproximar ainda mais Dele.
Em "Pois a minha alma está cheia de sofrimentos, e a minha vida se aproxima do Sheol." (v. 3), o salmista expressa que suas dificuldades se tornaram insuportáveis. Ele se refere ao Sheol, um termo que, no pensamento hebraico antigo, significa o reino dos mortos. Embora não seja um local geográfico na Terra, ressalta o nível de desespero que o salmista está vivenciando.
Lamentando que sua vida está próxima da morte, o escritor revela uma profunda desesperança e tristeza que ressoa com aqueles que se sentem engolfados pela adversidade. Essa admissão é significativa porque mostra que expressar nossas emoções genuínas diante de Deus é um componente natural da vida espiritual e não um sinal de falta de fé.
Contudo, vemos o salmista dirigir-se a Deus mesmo nesta condição desoladora. Esta oração ensina que, embora a proximidade do desespero seja real, ela também serve como um catalisador para invocar o único que pode resgatar, refletindo a libertação de Israel por Deus de seus muitos perigos ao longo da história (Salmo 34:17).
Ao declarar: "Sou contado com os que baixam à cova, sou como homem sem socorro" (v. 4), o salmista se identifica com aqueles à beira da destruição. A cova simboliza um lugar de trevas e desespero, reforçando a espiral descendente retratada ao longo deste salmo. Ele sente como se não tivesse vigor, reduzido à impotência.
O desespero pode roubar a capacidade de ação de uma pessoa, fazendo-a sentir-se impotente para mudar a situação, contudo, admitir essa fraqueza é, em si, uma forma de confiança mas sim, confessar que somente a força de Deus pode intervir. Assim como Paulo declararia mais tarde que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza (2 Coríntios 12:9), o salmista também expressa que sua fragilidade se torna uma oportunidade para ver o resgate divino.
A apresentação diante de Deus com a honestidade de reconhecer nossas próprias limitações abre caminho para a humildade. Quando deixamos de confiar em nossa força, buscamos com mais atenção a força de Deus. A postura do salmista nos convida a depositar nossas insuficiências diante do Senhor, para sermos preenchidos e fortalecidos por Sua graça.
Em seguida, o salmista descreve sua condição como "atirado entre os mortos; como os que, feridos de morte, jazem na sepultura, dos quais não te lembras mais, e que são desamparados das tuas mãos." (v. 5). Essa imagem é impactante, sugerindo que ele se sente impotente, repentinamente alienado da presença consoladora de Deus, da mesma forma que os falecidos não experimentam nenhum envolvimento terreno.
A sensação de abandono pode ser paralisante, eliminando qualquer consolo e deixando o sofredor completamente desprovido de esperança. No entanto, o salmo não declara que Deus o esqueceu completamente. Em vez disso, o salmista descreve a gravidade de seu estado mental e emocional. A expressão "estar isolado" enfatiza o lamento, mas não diminui a persistência das orações do salmista.
Em muitos momentos de dificuldade, o povo de Deus se sentiu abandonado da mesma forma, lembrem em Jesus na cruz, clamando: “Eli, Eli, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46). Tais momentos destacam nossa dependência de Deus e a realidade de que a fé muitas vezes é forjada no crisol da angústia humana.
O lamento se intensifica com "Puseste-me na cova mais profunda, em lugares escuros, em densas trevas." (v. 6). Aqui, Deus é retratado como tendo conduzido o salmista a um lugar de intensa aflição. Embora isso soe severo, revela uma convicção teológica de que o Todo-Poderoso é soberano até mesmo sobre a adversidade, Ele tem tudo em Suas mãos.
O poço mais profundo e os lugares escuros descrevem figurativamente o isolamento, a melancolia e a ausência de esperança. O salmista acredita que a responsabilidade final cabe a Deus, o que pode ser difícil de compreender, porém, essa perspectiva também pode inspirar uma submissão confiante: se o Senhor conhece cada detalhe do sofrimento, somente Ele pode conceder a libertação.
Para os crentes, a adversidade às vezes serve a um propósito: moldar o caráter e a confiança (Tiago 1:2-4). Mesmo que o salmista não consiga enxergar além do seu desespero, ele se apega ao Deus que reina sobre todas as situações, confiando que Aquele que permitiu essa situação difícil será também Aquele que a redimirá.
Ele continua: “Sobre mim pesa o teu furor, e me afliges com todas as tuas ondas. (Selá)” (v. 7). Compreender a ira aqui pode ser difícil, mas reflete a percepção do salmista do desagrado divino ou simplesmente o peso das calamidades que lhe foram permitidas atingir.
A imagem de ser atingido pelas ondas do oceano retrata uma turbulência implacável, assim que uma onda recua, outra chega. No imaginário israelita, essas vastas águas podiam ser temíveis e caóticas, e assim o salmista captura a sensação de ser subjugado por dificuldades sem trégua.
A pausa para Selá sinaliza um momento para meditação, convidando à reflexão ponderada sobre a gravidade da situação. Desafia os fiéis a considerarem a intensidade de suas próprias provações e encoraja uma postura de quietude diante do Deus cujo poder excede qualquer onda destrutiva (Marcos 4:39).
O salmista então lamenta: "Apartaste de mim os meus conhecidos, fizeste-me objeto de abominação para com eles; estou encerrado e não posso sair." (v. 8). Aqui, a aflição emocional se amplia para incluir isolamento social e rejeição. Amigos e companheiros se afastaram, deixando o salmista completamente sozinho.
O isolamento dentro da comunidade pode ser extremamente doloroso. Quando até mesmo os contatos mais próximos reagem com desgosto ou se distanciam, a pessoa que sofre fica com um sentimento de vergonha ou inadequação. Essa angústia remete a momentos da história bíblica em que servos fiéis permaneceram sozinhos, como os profetas que muitas vezes foram rejeitados por aqueles que buscavam guiar de volta a Deus.
O sentimento de aprisionamento ressalta que o salmista não vê saída e ao enfrentar o isolamento pessoal ou comunitário, os crentes podem se lembrar de que o próprio Jesus foi abandonado por muitos na hora mais sombria (João 6:66) porém, tal desolação pode intensificar o anseio pelo Senhor, que se aproxima quando outros se afastam.
Finalmente, “Os meus olhos desfalecem de aflição; dia após dia, tenho clamado a ti, Jeová, estendendo-te as minhas mãos.” (v. 9). Essa passagem retrata um homem exausto pelo choro e pela angústia constante. O esgotamento físico e emocional pesa muito, mas ele persevera em clamar a Deus diariamente.
Estender as mãos é uma postura de súplica inabalável, um ato de fé que antecipa a intervenção divina. Apesar das dificuldades, o apelo persistente do salmista demonstra uma esperança duradoura. Mesmo em seu lamento, ele crê que vale a pena buscar a Deus todos os dias.
Esta incansável súplica serve de exemplo para os crentes que atravessam períodos prolongados de sofrimento. Em vez de se entregar ao desespero, o salmista insiste em apresentar-se diante do Senhor, adotando uma postura de dependência e expectativa (Lucas 18:1).
Usado com permissão de TheBibleSays.com.
Você pode acessar o artigo original aqui.
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