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The Blue Letter Bible
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Jó 3:20-26 Explicação

Em Jó 3:20-26, Jó aborda uma questão fundamental: por que Deus permite o sofrimento, em particular, aplicando-a à sua própria e terrível situação. (O leitor pode acessar nossos artigos da série "Temas Difíceis Explicados" sobre "Por que Deus Permite o Mal?" e " Por que Deus Criou a Humanidade? " para mais informações sobre este assunto.)

Jó ainda está falando de um monte de cinzas, na região de Uz, que pode ter ficado a sudeste do Mar Morto ( veja o mapa ). É importante lembrar que Jó não sabe o que nós sabemos — que sua provação faz parte de um conflito cósmico no qual Deus autorizou Satanás a testá-lo, embora ainda assuma a responsabilidade pelo que permite (Jó 2:3).

E Jó aparentemente não sabe que os seres celestiais observam a fé humana com intenso interesse para aprender sobre Deus e Sua sabedoria (1 Pedro 1:12; Efésios 3:10). Jó tem a sensação de que Deus está distante, quando o oposto é verdadeiro — Deus está observando atentamente e está totalmente presente. Não temos a impressão de que Jó percebe que sua história acabará nas Escrituras e que seu nome será honrado como grande entre aqueles que viveram como testemunhas fiéis (Ezequiel 14:14).

Jó faz uma pergunta que é natural para qualquer pessoa em grande sofrimento: Por que é dada luz ao que sofre, e vida ao amargurado de alma? (v.20).

Jó usa a luz como símbolo da consciência contínua, a percepção constante de estar vivo mesmo quando viver dói. Ele usa a mesma metáfora em Jó 3:16, referindo-se aos filhos abortados como "crianças que nunca viram a luz". Ele ecoa a questão de por que a luz da vida é dada àquele que sofre, perguntando por que a alma amargurada continua a ter vida.

Podemos inferir que Jó está perguntando por que Deus permite que as pessoas sofram. Qual é o propósito? Por que não existe uma maneira melhor?

No Novo Testamento, Jesus se identifica como a verdadeira Luz (João 8:12), o que significa que a luz não é meramente a persistência da vida física. A vida física é um prenúncio de algo muito maior. Dado que essa história de Jó ocorreu séculos antes de Moisés, quando Jó só tinha a revelação transmitida oralmente, essa questão indica que, naquela época, era uma pergunta sem resposta.

É interessante, então, refletir que este primeiro livro das Escrituras a ser registrado por escrito se concentra em responder a esta antiga pergunta: “Por que Deus permite o sofrimento?” O que nos é apresentado em Jó são diversas verdades confirmadas em outras partes das Escrituras:

  1. A perseverança nas provações fortalece a fé, o que agrada muito a Deus, e a qual Ele recompensará grandemente (Tiago 1:2-3, 12).
    Deus deseja abençoar grandemente os Seus servos que são testemunhas fiéis em meio a intensas provações nesta vida terrena (Apocalipse 1:3, 3:21, 21:7).
  2. Existe um grande conflito celestial no qual os humanos desempenham um papel no silenciamento de Satanás por meio da fidelidade em viver retamente (Salmo 8:2, Hebreus 2:5-10).
    Os seres celestiais aprendem sobre Deus observando o povo de Deus viver pela fé (Efésios 3:10).

Observaremos que, por meio de suas provações, Jó chega a conhecer a Deus de uma maneira nova e mais profunda (Jó 42:5-6). Sabemos que a maior experiência possível da vida vem do conhecimento de Deus (João 17:3). E esta vida é nossa única oportunidade de conhecê-Lo pela fé. E conhecer a Deus pela fé é um privilégio que os anjos não têm, o que os leva a nos observar para compreender a sabedoria de Deus (Efésios 3:10).

Mas isso não significa que seja fácil. O sofrimento é real. Jesus suportou grande sofrimento e não gostou disso. Ele procurou evitá-lo. Mas, no fim, submeteu-se à vontade de Deus (Mateus 26:38-39). Foi por meio desse “sofrimento da morte” que Jesus foi “coroado” com a “glória e honra” originalmente destinadas aos humanos, que é reinar sobre a terra (Hebreus 2:9).

Em seu desespero, onde anseia pela morte, Jó descreve uma estranha inversão, onde a morte é retratada como um tesouro e a vida como pobreza: ele fala daqueles que anseiam pela morte, mas não há nenhuma, e a procuram mais do que procuram tesouros escondidos (v.21).

A imagem é vívida: um mineiro cavando a terra, não em busca de ouro, mas para pôr fim à dor. O verso " mas não há nada" captura a sensação de desespero e aprisionamento. Jó anseia por escapar, prefere a morte, mas continua a viver. Nisso, Jó se submete a Deus como autor da vida; ele não cogita tirar a própria vida. Em vez disso, pergunta: "Por quê?" Diante de toda essa miséria, "Por que ainda estou vivo?"

O contexto para isso é o grande drama que vimos nos capítulos anteriores. A história já nos mostrou que a vida de Jó não é aleatória; ela se tornou o ponto central de uma disputa celestial, e Jó não tem consciência de que está no palco. Ele não tem consciência do foco do céu, e de que os olhos da história verão tudo o que ele fez. Deus permitiu a provação, mesmo que Satanás seja quem inflige a ruína (Jó 2:3).

Isso não diminui a dor de Jó. Pelo contrário, torna sua dor significativa de uma maneira que ele ainda não consegue enxergar. Talvez isso seja semelhante à forma como um soldado em uma batalha noturna pode não enxergar a estratégia geral. O Céu observa as escolhas humanas, aprendendo a multiforme sabedoria de Deus através do que os humanos fazem pela fé (Efésios 3:10).

Jó vai além e descreve uma verdade emocional perturbadora: alguns sofredores celebrariam a sepultura como um alívio. Ele fala daqueles que anseiam pela morte (v. 21), assim como daqueles que se alegram grandemente e exultam ao encontrar a sepultura (v. 22).

O ponto de interrogação no final do versículo 22 remete à pergunta original do versículo 20: " Por que a luz (vida) é dada àquele que sofre?". A descrição de alguém que se regozijaria ao encontrar a sepultura descreve aquele que sente alívio ao morrer, pois isso põe fim ao seu grande sofrimento. As palavras "regozijar-se " e "exultar" são normalmente reservadas para adoração ou vitória. Jó as usa para si mesmo e para outros cujo desejo primordial é o fim do sofrimento por meio da morte.

O que deveria ser alegria (a vida) começa a parecer um castigo quando as circunstâncias se tornam insuportáveis. Mas a misericórdia de Deus não se limita a remover a dor; a misericórdia mais profunda de Deus é fazer a fé amadurecer. Deus está conduzindo Jó da busca por paz interior para o recebimento de cuidado, dando-lhe uma visão mais ampla de um Criador onisciente e onipresente. Neste momento, Jó não vê; mas verá (Jó 42:5-6).

Nessa perspectiva mais ampla, a sepultura não é o primeiro lugar onde se deve buscar esperança. O Novo Testamento revela uma descoberta melhor: a vida da ressurreição em Cristo (1 Coríntios 15:54-57). Podemos considerar que a ordem de Jesus aos seus discípulos para “negar a si mesmo, tomar a sua cruz diariamente e seguir-me” significa morrer para os prazeres do pecado e os desejos do mundo, rejeitando-os, e abraçar uma vida de obediência conquistada por meio dessa morte.

O lamento de Jó torna-se novamente pessoal: ele pergunta: "Por que a luz é dada ao homem cujo caminho está oculto, e a quem Deus cercou?" (v. 23).

Ele se sente perdido ( o caminho está oculto ) e confinado ( cercado ). Não consegue enxergar uma saída e sente que o próprio Deus o aprisionou no sofrimento. Este é um indício inicial da perspectiva equivocada que Jó tem de Deus, que será eventualmente resolvida.

Jó pensa que precisa encontrar um caminho a seguir. Mais tarde, ele argumentará que, se pudesse apresentar seu caso a Deus, Deus mudaria de ideia (Jó 23:7). A perspectiva de Jó sobre a soberania de Deus é correta (Jó 1:20-22). Mas Jó acredita que precisa determinar seu próprio caminho, sem perceber o envolvimento íntimo de Deus com ele e o cuidado que Ele tem por sua vida.

Essa expressão "cercado" é especialmente comovente porque, anteriormente, a vida de Jó foi descrita como protegida por uma cerca; Satanás observou a Deus que Ele havia colocado uma cerca de proteção ao redor de Jó (Jó 1:10), dizendo que Jó só servia a Deus por causa dos benefícios que recebia. Mais tarde, Deus baixou essa cerca de proteção para permitir a provação (Jó 1:12).

Neste momento, Jó não sabe nada disso. De sua perspectiva, a única proteção que ele consegue sentir é uma cerca de confinamento circunstancial, como se Deus tivesse movido a cerca da proteção para a prisão.

Satanás é quem traz a ruína, mas Deus autoriza o que é permitido e, portanto, assume a responsabilidade por permiti-lo (Jó 2:3). Deus governa uma realidade com mais camadas do que Jó consegue perceber. A luta de Jó não é a falta de informação de Deus. A questão é a falta de perspectiva de Jó. Deus abordará isso nos capítulos 38 a 42.

Jó então descreve como o sofrimento invade o ato mais básico da vida, comer: "Pois o meu gemido vem à vista da minha comida, e os meus gritos se derramam como água" (v. 24). O corpo está tão sobrecarregado que até mesmo a perspectiva de alimento desencadeia dor. Ele deseja comer, mas isso apenas causa mais agonia. Podemos presumir, portanto, que Jó havia perdido uma quantidade imensa de peso, o que condiz com Jó 2:12, que diz que Elifaz e seus dois amigos jamais reconheceram Jó quando o viram.

Mesmo quando a queixa de Jó beira a rebeldia ou a amargura, ele ainda está falando com Deus, não se afastando Dele. Esse desabafo sincero antecipa o convite bíblico posterior: “aproximar-se com confiança do trono da graça… para encontrar graça que o ajude em tempo de necessidade” (Hebreus 4:16).

Jó ansiava pela morte, mas agora expressa temor: "Pois aquilo que eu temia me sobreveio, e aquilo que eu receava me aconteceu" (v. 25). O hebraico literal repete duas vezes a palavra "pahad", que significa "temor". Portanto, a transliteração seria: "Pois um temor que eu temia me sobreveio". A Tradução Literal de Young traduz o versículo como: "Pois um temor que eu temia me sobreveio, e aquilo de que eu tinha medo me sobreveio".

A gramática indica que Jó está dizendo que algo que ele temia anteriormente finalmente aconteceu. No contexto, ele fala sobre gemer ao ver a comida. Ele está tão doente que não consegue comer. Ele também acabou de dizer: "Meus gritos jorram como água". Portanto, parece que Jó está dizendo que temia contrair uma doença prolongada e dolorosa, e agora isso aconteceu.

Vimos em Jó 2:7 que Satanás “feriu Jó com úlceras malignas desde a planta do pé até o alto da cabeça”. Jó estava em completa miséria, o que era o plano de Satanás. No contexto do anseio pela morte, do qual ele começou a falar no versículo 20, Jó estaria dizendo: “Quero que aquilo que eu temia termine, e o caminho para que termine é eu passar para um lugar melhor”.

Jó repete sua angústia em seu sofrimento: "Não tenho paz, nem sossego; não encontro repouso, mas a angústia me assola" (v. 26). As úlceras da cabeça aos pés lhe causam desconforto ao comer e ao dormir. Ele não consegue descansar. Vive em constante angústia.

A palavra hebraica traduzida como "tumulto " também pode ser traduzida como "problema" ou "tremor". Jó está em constante estado de dor e desconforto, o que explica por que Jó 3:17 apresenta a sepultura como um lugar de "descanso" para os "cansados". As negativas repetidas, "sem paz... nem... tranquilo... sem repouso", mostram que o sofrimento de Jó abrange toda a sua existência. Seu sofrimento externo também afetou profundamente seu mundo interior.

Jó não tem descanso. Ele anseia por descanso. Nesta passagem, ele pensa que sua melhor opção para descansar é a morte. Mais tarde, veremos Jó se reerguer e ansiar por outra opção: apresentar seu caso perante o Todo-Poderoso. Então, ele expressa confiança de que, como alguém "íntegro", seria ouvido e "livre para sempre do meu juiz" (Jó 23:6-7).

É possível que esse ânimo surja do estímulo que ele receberá do diálogo com Elifaz e seus dois amigos. Embora esse trio não fale corretamente de Deus (Jó 42:7), parece que eles preparam Jó para o encontro desejado com o Todo-Poderoso, que ocorrerá a partir de Jó 38.

Em termos do Novo Testamento, o descanso que Jó tanto anseia é oferecido por meio de Jesus Cristo. Ele diz:

"Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso."
(Mateus 11:28)

Como crentes do Novo Testamento, nossa tendência será ler este versículo e pensar: “Ótimo, posso pedir a Jesus e ser aliviado do sofrimento”, que é o mesmo anseio básico que Jó expressa aqui no capítulo 3. No entanto, Jesus segue essa promessa de “descanso” com o versículo seguinte, que fala sobre andar em obediência aos Seus caminhos:

"Tomem sobre vocês o Meu jugo e aprendam de Mim, pois Sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas."
(Mateus 11:29)

A promessa não é de libertação física, mas de paz espiritual. Esta paz vem através do seguimento dos caminhos de Deus. Isso explica por que, mais tarde no livro de Jó, a resposta de Deus ao seu pedido é repreendê-lo por sua presunção em pensar que Deus não tinha a mesma perspectiva. A questão é que Jó precisa da perspectiva de Deus. A verdadeira fonte de descanso para sua alma é ver e crer em Deus e adotar a perspectiva da realidade que Ele possui através dos olhos da fé.

A frase “ENCONTRAREIS DESCANSO PARA AS VOSSA ALMA” em Mateus 11:29 está em maiúsculas na versão NASV 95 para indicar que se trata de uma citação do Antigo Testamento. A citação é de Jeremias 6:16, que reforça a ideia de que a paz espiritual vem por meio de uma vida de obediência.

Assim diz o Senhor: “Parem nas estradas, olhem e perguntem pelas veredas antigas, qual é o bom caminho e andem por ele; e vocês encontrarão descanso para as suas almas”. Mas eles disseram: “Não andaremos por ele”.
(Jeremias 6:16)

Em seguida, ouviremos Elifaz, que refutará o argumento de Jó e, embora fale mal de Deus, aparentemente despertará Jó o suficiente para prepará-lo para ouvir a voz de Deus, arrepender-se de sua ignorância e ser completamente restaurado (Jó 42:5-6, 10).

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