
Em Jó 4:1-6, o primeiro dos amigos de Jó começa a falar, como Então Elifaz, o temanita, respondeu (v.1), introduzindo um diálogo entre Jó, Elifaz, seus dois amigos e Eliú (Jó 32:1) que continuará até o Capítulo 37.
Elifaz é identificado como um temanita, ligando-o a Temã — uma antiga região associada a Edom (Gênesis 36:11, 34). Edom ficava a sudeste do Mar Morto, estendendo-se pelas terras altas acidentadas que descem em direção ao Arabá. Essas terras eram conhecidas por suas rotas de caravanas, uádis (vales) secos e pela difícil sobrevivência em uma paisagem inóspita. Na Bíblia, Temã é associada a Edom (Jeremias 49:7).
Elifaz fala como um homem confiante de que entende como a vida funciona — como Deus governa o mundo e por que as pessoas sofrem. No entanto, como veremos, Elifaz carece de uma perspectiva verdadeira. Quase no final, em Jó 42:7, afirma-se categoricamente que nem Elifaz, nem Bildade, nem Zofar falam verdadeiramente sobre Deus, enquanto Jó o faz. O trio liderado por Elifaz retratará Deus como poderoso, e muito do que dizem sobre Ele será preciso. Mas a perspectiva deles sobre Deus será a de que Ele é transacional e, em última análise, controlado pelas ações humanas, que é a mesma acusação básica feita por Satanás em Jó 1:10-11.
Os três insistirão em afirmar que Jó merece o que lhe aconteceu porque Deus é justo e dá às pessoas o que elas merecem. Isso é verdade, mas não é toda a verdade. O tempo de Deus não é o tempo deles, e a Sua justiça não se encaixa em nenhum modelo humano.
A visão que eles têm da justiça de Deus é muito limitada. Como veremos, em suas mentes, a justiça precisa ter uma determinada aparência. Ela precisa se encaixar em sua compreensão limitada. E, em última análise, em sua visão, a justiça de Deus é controlada pelas ações humanas. Isso não é verdade e enfurece a Deus. E para demonstrar o quão falsa é essa perspectiva, embora Deus esteja irado, Ele os absolverá completamente e perdoará sua transgressão por meio da intercessão de Jó (Jó 42:8).
Elifaz começa com cautela, mas sua abordagem logo revela um perigo sutil: ele dirá coisas que parecem verdadeiras, mas de uma maneira que não capta o propósito mais profundo de Deus. O livro de Jó ensina constantemente que conselhos sábios ainda podem estar errados se reduzirem o Senhor a um sistema no qual as ações humanas controlam Suas decisões. Jó terminou sua declaração inicial (Jó 3) e Elifaz agora fala: Então Elifaz, o temanita, respondeu (v. 1).
Em Jó 3, Jó expressou seu lamento, lamentando-se profundamente por existir, sofrendo sem nenhuma razão aparente. Elifaz agora responde, tentando explicar a crise de Jó e oferecer uma solução que esteja ao seu alcance. Um silêncio de sete dias chega ao fim, e uma busca por compreensão se inicia. Observaremos o quão críticos serão os três conselheiros de Elifaz em relação a Jó. Eles o repreenderão por sua arrogância em manter-se inocente e o exortarão a se arrepender de tudo o que causou sua terrível situação, que, segundo eles, deve ser o julgamento de Deus sobre ele.
Elifaz e seus amigos expressarão grande convicção de que Jó fez algo errado. Eles também acreditam firmemente que o arrependimento de Jó será a causa e a restauração de Jó por Deus será o efeito desse arrependimento. Se isso fosse verdade, significaria, é claro, que Deus é de fato transacional, como uma máquina de venda automática.
Podemos também observar que Deus expressará ira pelo fato de o trio ter falado falsamente sobre Jó e exigirá que se humilhem perante ele. Deus os instruirá a pedir a Jó que ofereça sacrifícios em seu favor para que sejam perdoados e evitem o Seu julgamento.
Veremos também que, embora Jó fale a verdade sobre Deus, sua perspectiva é muito limitada. Ele pedirá para ser ouvido por Deus, confiante de que, se Deus ouvisse sua perspectiva, mudaria de ideia e restauraria Jó (Jó 23:6-7). Deus trata disso em Jó 38-41, onde leva Jó a compreender Seu envolvimento íntimo em cada detalhe da vida de Jó. Jó chegará a conhecer a Deus de uma maneira nova e mais profunda, o que lhe será de grande benefício (Jó 42:5-6).
Isso implica que Deus está intimamente envolvido com todos os seres humanos, o que é comprovado em passagens como:
Isso implica que a permissão de Deus para o sofrimento humano faz parte de um plano maior para um bem maior. É importante lembrar que Jó provavelmente foi a primeira parte das Escrituras a ser registrada por escrito. Antes disso, existia apenas a tradição oral. Embora personagens como Noé, Jó e Melquisedeque nos mostrem que havia conhecimento suficiente de Deus para segui-Lo em verdade antes da existência de escrituras, Jó demonstra que havia muito que Ele não havia revelado. Isso significa que os crentes do Novo Testamento têm uma responsabilidade maior, pois receberam uma revelação maior; e a quem muito é dado, muito será exigido (Lucas 12:48).
Quando os seres humanos se deparam com coisas que não entendem, cria-se um vácuo que precisa ser preenchido. Esse vácuo pode ser preenchido com explicações baseadas na fé ou com explicações baseadas na perspectiva humana. E as explicações baseadas na perspectiva humana tendem a ser centradas no ser humano. Sabemos que Elifaz era verdadeiramente amigo de Jó. Ele veio para lamentar com ele e ficou sentado por sete dias inteiros esperando que Jó falasse (Jó 2:11-13).
Nesse sentido, seu discurso começa dentro de uma relação histórica. Ele provavelmente acredita que seu conselho é sensato e o pretende para o bem de Jó. Essa poderia ser uma razão substancial para Deus perdoar Elifaz e seus amigos quando eles pedem a Jó que interceda por eles.
Elifaz agora inicia seu diagnóstico e prescrição. Ele formula a preocupação inicial que abordará como uma pergunta: "Se alguém se atrever a falar com você, você ficará impaciente?" (v. 2). Ele está essencialmente dizendo: "Se você me ouvir com atenção, explicarei tudo e você poderá resolver o problema". Sabemos por Jó 42:7 que seu conselho não é preciso, portanto, devemos ter isso em mente ao analisarmos as palavras de Elifaz.
Mas Elifaz parece revelar algo sobre nós mesmos. Temos a tendência de buscar uma explicação que resulte em uma solução que controlamos. No entanto, nosso controle é frequentemente uma ilusão. Quando Elifaz diz "Mas quem pode se conter e não falar?" (v. 2), ele demonstra uma compulsão em interpretar o sofrimento de Jó e oferecer uma solução.
As Escrituras celebram as palavras oportunas (Provérbios 25:11), mas também honram a moderação (Provérbios 17:27). Elifaz demonstrou grande moderação ao esperar sete dias para que Jó falasse. Agora, ele tenta proferir palavras oportunas, que serão equivocadas.
Elifaz começa por mencionar o histórico de Jó como conselheiro: "Eis que admoestaste a muitos" (v. 3). Jó era um homem que servia aos outros. Seus conselhos eram buscados. A palavra "admoestava" remete à correção, à orientação e à clareza moral. Isso implica que Jó possuía discernimento, paciência e uma reputação de ajudar os outros a suportar dificuldades com integridade.
Jó provavelmente era um dos líderes de sua comunidade de Uz, talvez o principal, como vemos em Jó 29:7. Ali, Jó relembra uma ocasião em que foi ao “portão da cidade” e tomou seu “assento”. O portão da cidade era o lugar do julgamento. Era onde as transações legais eram realizadas, como vemos em Rute 4:1, onde a transação de Boaz resgatando as terras de Noemi foi concluída no portão.
A declaração de Elifaz também cria uma expectativa: se Jó foi forte pelos outros, não deveria ser forte agora? Isso é semelhante ao que Deus dirá em Jó 38:3, quando Ele diz a Jó para “cingir os lombos como um homem” para ouvir as palavras de Deus e ser endireitado. Nesse aspecto, Elifaz adota uma postura de falar como Deus fala.
Elifaz continua: "E fortaleceste mãos fracas" (v. 3). Mãos fracas são uma imagem de desânimo — mãos caídas, incapazes de trabalhar, incapazes de lutar, incapazes de manter a esperança. Jó aparentemente praticou boas ações e deu conselhos que restauraram a capacidade de pessoas que se sentiam incapazes de seguir em frente. Isso significa que Jó expôs a realidade como ela era. Ele diagnosticou a situação e deu às pessoas ações a serem tomadas para lidar com ela. A implicação é: "Você distribuiu remédios fortes para outros, agora precisa se preparar para receber um pouco do meu para seu próprio benefício."
Elifaz acrescenta outro elogio: "Tuas palavras ajudaram o cambaleante a se firmar" (v. 4). O conselho de Jó estabilizou pessoas que estavam vacilando — aquelas à beira do colapso, inseguras se conseguiriam se manter de pé. Cambalear evoca a imagem de alguém tropeçando em terreno irregular. Na vida espiritual, terreno irregular pode representar medo, perda, culpa, incerteza ou exaustão. Jó tinha o dom de ajudar os outros a reencontrar o equilíbrio — lembrando-os da verdade e ajudando-os a apoiar-se em algo mais sólido do que seus sentimentos. A implicação é que Jó agora está cambaleando e as palavras de Elifaz o ajudarão a se firmar.
Elifaz repete o mesmo tema em uma nova imagem: " E fortaleceste joelhos fracos" (v. 4). Os joelhos cedem quando a força se esgota. Joelhos fracos representam o momento em que uma pessoa não consegue suportar o peso do que carrega. Elifaz afirma que agora ajudará Jó como ajudou outros.
Quando os joelhos estão fracos, isso pode significar não apenas fraqueza física, mas também fadiga espiritual — dificuldade em permanecer firme diante de Deus, dificuldade em continuar em reverência e confiança. Vemos uma admoestação em Hebreus 12:12 para “fortalecer as mãos fracas e os joelhos vacilantes”. O contexto é o da disciplina paterna — receber correção. Provavelmente, esse é o ponto de Elifaz: o conselho de Jó ajudou as pessoas a se reerguerem, e agora ele precisa do conselho de Elifaz para se reerguer.
Elifaz passa do elogio à acusação: "Mas agora chegou a tua vez, e estás impaciente" (v. 5). Trata -se de sofrimento — calamidade, perda, ruína. Elifaz afirma que Jó está reagindo mal ao mesmo tipo de dificuldade que outrora ajudou outros a enfrentar. Isso provavelmente se refere ao lamento de Jó no capítulo anterior.
O grupo reunido para consolar Jó permaneceu sentado por sete dias, aguardando que ele falasse primeiro. Jó falou no capítulo 3, desejando não ter nascido ou morrer e entrar em um estado de repouso como forma de escapar de sua miséria atual. Como veremos, o que seus três amigos queriam ouvir era Jó admitir que merecia tudo o que lhe sobreveio, arrepender-se e exortar a Deus a restaurá-lo. O que eles ouviram, em vez disso, foi Jó afirmar que não fizera nada para merecer tal calamidade. Como observadores desse grande drama, temos a vantagem de saber que a afirmação de Jó é verdadeira (Jó 1:22).
A palavra hebraica traduzida como impaciente é traduzida na versão grega do Antigo Testamento com uma palavra que significa "apressado". A acusação de Elifaz é que o desejo de morte de Jó é prematuro. Ele precisa permanecer na luta e buscar a vida. Pode ser que esse conselho tenha sido bastante útil para Jó e tenha servido a um bom propósito. O desespero inicial de Jó no capítulo 3 se transforma em uma defesa vigorosa e no desejo de comparecer perante Deus quando esse diálogo chega ao capítulo 23.
Podemos considerar que, embora Elifaz acuse Jó injustamente, ele desempenha um papel fundamental ao preparar Jó para ouvir o que Deus tem a dizer, o que resultará em sua restauração. Os Salmos estão repletos de justos que sofrem e expressam sua dor sem serem condenados por isso (Salmo 13, 42). Mas a mensagem de Elifaz, de que Jó não deve perder a esperança, parece surtir efeito e lhe trazer benefícios.
Elifaz acrescenta: "Isso te toca, e você fica consternado" (v. 5). A palavra "consternado" carrega a ideia de estar em estado de confusão, de surpresa. A desorientação coloca a pessoa em um estado de não saber o que fazer. Agora, Elifaz conduzirá diretamente a um pensamento equivocado. Ele dirá em seguida que Jó não deveria ficar consternado ou confuso, porque a questão é clara: Jó fez algo errado, ou nada disso teria acontecido. A afirmação de Elifaz será: "Coisas ruins acontecem a pessoas ruins e coisas boas acontecem a pessoas boas porque Deus é justo".
Elifaz estabelece seu argumento de que Jó está sofrendo por causa de sua própria culpa, perguntando: “ Não é o temor de Deus a tua confiança, e a integridade dos teus caminhos a tua esperança?” (v. 6). Esta é uma pergunta retórica que pressupõe uma resposta afirmativa. Jó era conhecido por ser justo tanto na terra quanto no céu (Jó 1:8). Jó reafirmará sua integridade mais tarde neste diálogo, dizendo: “Até a morte, não abandonarei a minha integridade” (Jó 27:5). E sabemos que Jó temia a Deus por sua reação às calamidades que lhe sobrevieram (Jó 1:20-22).
Jó sabia que não havia feito nada de errado e não estava disposto a admitir o contrário, seja para agradar seus amigos ou para tentar manipular a Deus. Sabemos que Jó tinha esperança na integridade de seus atos, pois mais tarde ele desejaria ter uma conversa com Deus e apresentar sua perspectiva. Ele tinha confiança e esperança de que, se pudesse ter tal conversa, seria libertado de seu sofrimento (Jó 23:6-7).
O Novo Testamento diz dos crentes que nascem de novo pela fé em Jesus que eles “nascem de novo para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1 Pedro 1:3). Podemos aprender com Jó a manter nossa integridade e perseverar em meio às dificuldades.
Mas os crentes do Novo Testamento também têm revelações adicionais (e, portanto, maior responsabilidade) que apontam para uma grande esperança de recompensas do nosso Salvador por vivermos uma vida de integridade (Apocalipse 3:21). Sabemos pelas Escrituras, incluindo a história de Jó, que os justos podem sofrer, e o sofrimento pode se tornar o campo onde a fé se torna mais preciosa que o ouro (Tiago 1:2-3, 12; 1 Pedro 1:6-7).
Usado com permissão de TheBibleSays.com.
Você pode acessar o artigo original aqui.
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